Entrevista dada ao fã clube

 

FC: Arly, desde quando você canta?

AC: Comecei a tentar aos 13 anos que foi quando eu comecei a tocar bateria. Aos 25 eu já tocava violão direitinho daí montei uma bandinha que tocava em um clube. Ainda era uma tentativa. Dos 25 aos 28 estudei canto lírico sozinho com o livro da Madeleine Mansion, professora do conservatório municipal de Paris. Aí fui à Ordem Dos Músicos Do Brasil e tirei a minha carteira definitiva como músico cantor erudito.

FC: Uma longa estrada, não?

AC: É mais longa ainda. Passei dos 30 aos 39 regendo corais de empresas e de vez em quando fazia um solo. Reger coral, para mim, era um saco. Acho que não fui um mau maestro, mas aquilo não me realizava nem um pouco. Me sentia um prestador de serviço. Sabe, me preparei para reger peças eruditas; Mozart, Bach, Palestrina, Wagner, daí chega no coral de empresa o repertório tem que ser 90% de música popular. Para mim era deprimente. Foi aos 40 que resolvi começar a cantar mesmo, pra valer. Um trabalho meu, de intérprete, minha concepção. Montei uma boa banda e comecei a botar a cara.

FC: Em que ano isso aconteceu?

AC: 1990 mais ou menos. Teve um grande amigo na época que me incentivou muito, o Andréa Di Maio. Ele é um super pianista, tem consciência orquestral e muito bom gosto. Comecei, como muita gente, no Victoria Pub.

FC: Que tipo de som você cantava nessa época?

AC: Beatles em bossa nova. Em 1966 o Sérgio Mendes fez esse trabalho com três músicas dos Beatles lá nos EUA. Era mais numa levada de samba. Foi sucesso total. Em 1969 um americano chamado Gary McFarland fez a mesma coisa só que bossa nova mesmo. Daí nunca mais vi ninguém fazer essa brincadeira até 1990. Gravai uma fita demo, mostrei para o Roberto Menescal que elogiou muito. Mandei para uma gravadora daqui de São Paulo, mas não teve resposta. Aliás, teve. Um ano depois a mesma gravadora lançou um produto chamado Beatles em bossa nova com cantores de estúdio, tipo musac, bem gravado, mas sem conceito. Claro que não deu em nada.

FC: Quando você parou de fazer esse trabalho?

AC: Na verdade eu não parei, só ampliei meu trabalho com outros compositores e outros estilos. O Victoria Pub era uma casa maravilhosa para quem queria fazer experiências. Os Mamonas nasceram lá, na mesma época. A liberdade era total. Podia fazer qualquer coisa desde que agradasse ao público. Como era uma casa noturna jovem, não podia ficar naquela levada mansa de bossa nova. A bateria começava a carregar mais um pouquinho, o baixo suingava mais, os solos de guitarra e teclado ficavam mais ousados, derrepente a gente tava fazendo Beatles in Samba, Blues e Salsa, que foi uma herança de Porto Rico.

FC: Você cantou lá?

AC: Em 1993 a gente abria o show do Sergio Mendes no Hilton de San Juan numa mega convenção de uma montadora de carros de São Paulo. Quando eu saio do país gosto de andar a pé, pegar ônibus, metro, só assim a gente conhece o povo e a cultura do lugar. E San Juan, que se parece muito com Salvador, tem muita música de coreto na rua. Só que são bandas imensas de salsa, com 14 músicos ou mais. É um absurdo. No lobby dos hotéis tem mais banda de salsa. Você volta de lá sonhando com salsa. Daí eu fazer algumas músicas dos Beatles em salsa. Era um grande barato!

FC: Alguma experiência pessoal interessante em Porto Rico?

AC: Perder 2 dólares por noite no cassino do Condado Plaza Hotel que foi onde eu fiquei.(gargalhada) Tinha um brasileiro lá perdendo U$ 300.000,00. Peraí.....teve sim....uma coisa muito engraçada. Na última noite de show, o empresário falou que seria legal a gente ir ao camarim do Sérgio Mendes cumprimenta-lo. Isso por que nos outros shows, quando acabava a nossa parte, eu e a banda pegávamos a Van e íamos correndo pro Condado. Tava exausto, queria comer e jogar os dois dólares respirando o oxigênio puro do cassino (risos). Mas nesse dia não deu. Lá fomos nós para o camarim do Sérgio. Foi legal. Ocupava a suíte presidencial do Hilton. Ao ser apresentado pro Sérgio disse a ele que estava seguindo a idéia dele fazendo Beatles em bossa o que ele achou um barato. Fui apresentado à esposa dele que me disse: "Eu te conheço de algum lugar... Eu pensei "Ela bebeu" . É uma brasileira mas que vive lá há décadas. Daqui a pouco ela repete a frase. E eu "De onde será, né?" Dali a pouco outra vez. Daí eu pensei "Não vai sair disso" . O mais interessante é que ela era mesmo familiar a mim. Passou. Quando eu estava no avião voltando caiu a ficha. Em 1972 eu tive uma namorada chamada Liana Leporace, filha do famoso radialista Vicente Leporace (exímio conhecedor de ópera). A Mulher do Sergio se chama Graça e assim ela se apresentou no camarim, mas o nome artístico dela era Gracinha Leporace, prima da Liana. Deu vontade de parar o avião e voltar pra falar com eles (risos). Outra coisa legal que aconteceu lá foi mergulhar naquele mar maravilhoso. Inesquecível.

FC: Arly, a gente não vê mais você cantando com banda. Porque isso?

AC: (Suspiro) É uma longa e cômica história. Músico que acompanha um cantor que tem seu trabalho como intérprete, quer, precisa, deve e merece ser bem pago. Acontece que até 1996 (plano real) a noite pagava muito mal.

FC: Depois melhorou?

AC: Piorou. Para mim inviabilizou. Então, no começo, eu ligava para alguns músicos e dizia: "Tem tanto de cachê, ce topa?" "Topo". Daí tem que ensaiar, mas não tem grana pro ensaio, claro que rola uma má vontade legal. Aí o ensaio fica naquele clima. Em geral, quanto mais velho o músico mais "criativo" ele se permite ficar no show. Ou seja, a gente combina uma coisa no ensaio e na hora do show rola outra. Aí resolvi trabalhar com universitários da Faculdade de Música da Usp. Foi ótimo. Rolava disciplina, respeito aos tratos, etc. Mas tinha as brigas com as namoradas, stress com os pais, os problemas psicológicos de pós-adolescente, cancelamento de participação na última hora, etc

FC: Como assim?

AC: Um dia antes de um show contratado, por exemplo, ligava um músico dizendo que não poderia ir porque brigou com a namorada.

FC: E aí?

AC: Aí eu passava a madrugada ligando para todas as casas noturnas procurando um substituto.

FC: E achava?

AC: Achava. Com raras exceções eram aqueles músicos mais velhos e cheios de vícios musicais. Meu Deus, era um saco! É inacreditável, mas um tecladista (que hoje é meu amigo) me deixou na mão um mês antes de irmos para Porto Rico. No dia do primeiro ensaio com ele, a banda toda reunida em casa e nada do cara chegar....2 horas depois o porteiro do prédio interfonou e disse que um rapaz havia deixado uma pasta de música na portaria. Desci para pegar e nem sequer um bilhete...nada. Liguei para o cara e nada...No dia seguinte liguei de novo e ele atendeu. "Que que aconteceu, cara?" Perguntei, ao que ele respondeu: "Ah Não quero ir não" (risos).

FC: Que louco!!! Em quais casas mais você cantava nessa época Arly?

AC: No Clydes, Merlyn, Pralinê, Galery, Café Paris, e muitas outras, nem me lembro.

FC: Como é que parou com a banda?

AC: Então, voltando, 1996, plano real, as casas noturnas não tinham mais verba, eu já tava de saco cheio de banda e já estava metido na internet quando ainda era BBS. Eu sempre fiz trilhas para filmes empresariais, tinha já um computador que era um estúdio, começaram a aparecer os arquivos midi de graça na net. Uns arranjos maravilhosos, feitos com muito capricho. Comprei um gravador de mini-disc (gravador de cd naquela época era muuuuito caro) e comecei a produzir meus próprios arranjos. Foi ótimo sob todos os aspectos. Eu podia fazer meu show com um som muito bom, o arranjo é sempre legal pra mim, (eu tenho um razoável conhecimento de orquestração), ocupo um espaço físico mínimo, e o mais importante: fico livre para trabalhar sossegado a interpretação que é o ponto forte do meu trabalho. Certa vez quando eu ainda tinha banda, um amigão meu, o publicitário Camilo Magalhães, disse que eu cantava muito bem e era um bom domador de leão referindo-se à banda (risos). Justiça seja feita, eu não posso deixar de falar aqui de, pelo menos, duas honrosas exceções a essa regra de músico no meu histórico. Rodrigo Celso Vitta, que hoje é um grande maestro, foi contrabaixista e excelente companheiro de palco. Sem ele o meu trabalho não teria andado. E o Renato Grimberg, guitarrista, gravou um cd instrumental intitulado "Sem Palavras" muito bom com as músicas do Caetano e hoje mora nos EUA. Esses músicos foram e são, para mim, amigos mesmo. No mais, essa problemática toda se resume a um único detalhe: Se bem pago, qualquer profissional rende bem ou a possibilidade de seleção é maior por parte do contratante. No Brasil, em que, a cada dia, o futuro espelha um passado melhor, fica difícil.

FC: Em que casas você cantou depois dessa mudança para solo?

AC: Parei de cantar regularmente em casa noturna, o que, para mim, foi um alívio.

FC: Você não gosta de casas noturnas?

AC: Não é isso. Casa noturna, de vez em quando é bom. É que eu achei o meu lugar, o que tem tudo a ver comigo para cantar: O Shopping Center. OShopping tem uma coisa que não tem em nenhum outro lugar: você canta para gente de todas as idades, classes econômicas, culturais, etc... Daí, com o tempo, você vai descobrindo quais músicas falam ao coração de todas as pessoas. É meio contra a correnteza da mídia que trabalha para públicos dirigidos. A rádio do rock, a rádio isso, a rádio aquilo, a casa noturna do jazz, do forró, etc....no Shopping não...ta todo mundo ali e você tem que cantar pra todo mundo. Não estou dizendo que o Shopping seja perfeito. Nada é perfeito a começar por mim, mas é um lugar pra você exercer a arte de cantar pra todos.

FC: O que não é perfeito num shopping para a música?

AC: Prefiro dizer o que poderia ser melhor, como uma crítica construtiva. Salvo alguma exceção que eu desconheça, (é que eu cantei em 26 shoppings apenas) nenhum shopping foi construído prevendo a música ao vivo nas praças de alimentação. Como está provado que é um bom negócio ter música nas praças de alimentação, era preciso sair da adaptação e caminhar para a profissionalização a bem de servir melhor o freqüentador. Ter uma distribuição de caixas acústicas inteligente pela praça para que o volume do som não tenha que ser insuportável para quem estiver perto do palco, para que seja audível para quem está longe. Ter um funcionário do Shopping, pode ser da manutenção, para controlar o botão de volume. É impossível para o artista fazer a sua performance e ser o técnico de som ao mesmo tempo. O Shopping Manaira em João Pessoa destaca um funcionário para isso e, lá, nunca tem problema de volume. Maior habilidade por parte dos orientadores da segurança quando forem pedir para o músico aumentar ou abaixar o volume da música. Isso tem que ser combinado antes, deve ser feito à distância, entre músicas, sem que o público perceba. Pega mal para o próprio shopping, exibe para o público a falta de preparo. Os palcos têm que ser bonitos, iluminados, assim como as vitrines. É o shopping que está oferecendo aquilo. Neste momento, 2004, conheço um único shopping na Grande São Paulo que tem um palco exemplar; é o do Shopping ABC em Sto André. Outra coisa é o acesso do músico ao Shopping. No meu entender, não tem cabimento um artista pagar estacionamento para fazer o seu show. A casa de show, e aí se incluiria o Shopping enquanto contratante de artistas, tem sempre um estacionamento perto do palco reservado para o artista com infra-estrutura de transporte (carrinhos de quatro rodas) de seu equipamento até o palco. Como isso é proibido ao lojista, proíbem também ao músico. Veja que, onde isso acontece, não se faz distinção entre lojista e músico!!!! O lojista está lá o dia inteiro, tem horário, forma regulamentada para transportar suas mercadorias e até via de acesso especial até a sua loja. O local de trabalho do músico não é numa loja. É no centro da praça de alimentação. Ele tem que chegar até lá com o seu equipamento, de preferência em uma viagem só, para incomodar o menos possível ao frequentador. Para um pensante de raciocínio mais curto isso pode parecer estrelismo da minha parte, mas não é. Ninguém virou estrela por cantar em Shopping. É para que o serviço prestado seja de maior e melhor visibilidade ao público, para que melhor o predisponha ao consumo, assim como todo o resto do Shopping. Mas a causa disso é bem evidente. O Shopping é criado por excelentes arquitetos que não previram música em praças de alimentação. Isso ainda não existia. Quem coordena a música no Shopping coordena uma ADAPTAÇÃO e até que fazem milagres dentro do "quebra-galho". Bem, música ao vivo em Shopping existe há apenas 10 anos, é muito pouco tempo, ainda mais num país sempre quebrado como o nosso. E o mais importante, não sei quantos donos de Shoppings já observaram isso no local. Se não, vale uma visita.

FC: Quantos shows você já fez em Shopping Centers?

AC: Hahaha....perdi a conta...são oito anos com uma média de 260 por ano...uns 2000.

FC: Eles pagam bem?

AC: A mim pagam, mas tem músico muito bom por aí se apresentando em Shopping ganhando oitenta reais, cem, quando muito 150. Deus me livre. Um detalhe muito cruel para com o artista é que, se o artista arrumar um patrocinador pessoal que pague o seu cachê, o shopping não permite a exposição, no palco, da marca patrocinadora daquele artista. Existem excessões, mas que, infelizmente, só confirmam a regra.

FC: Saindo do Shopping e indo para Mônaco. Eu vi no seu release que você cantou lá. Como foi que isso aconteceu? Foi bom?

AC: Foi muito bom. Eu e minha mulher estávamos numa viagem de férias pela Europa. Alugamos um carro e saímos de Paris meio sem destino. Como sou um aficionado por automobilismo não queria deixar de visitar Monte Carlo. Fiz todo o circuito da F1 à pé. Deixamos o carro na Av. Princesa Grace que fica no começo daquele túnel. Na volta vi que, bem na frente de onde estacionamos, tinha um bar chamado "Sao Brazil" todo decorado com bambus, folhagens caribenhas hehe aquele conceito europeu de Brasil. Entramos para tomar um suco e vi um palco. Devia ser umas 15h. Fui conversar com o dono que se chama Nini, um italiano apaixonado pelo Brasil sem nunca ter vindo aqui. Ele disse ser amigo do Senna (que tinha um apartemento no prédio do bar), do Piquet, do Erasmo Carlos e outros brasileiros famosos. Eu disse que era cantor e que fazia músicas dos Beatles em Bossa Nova. Mostrei aquela fita demo para ele e disse que gostaria de cantar lá. Ele ouviu, gostou e disse: "Você pode vir quinta feira?" Era uma terça. É claro que eu disse claro, e fui. Foi um barato. Só violão e voz. Aproveitei para cantar uns rocks também. Ele disse que o Ringo Star morava por ali, me mostrou o prédio, uma foto dele tomando um drink lá, mas não tive a oportunidade de ser ouvido pelo meu ídolo.

FC: Por falar em Senna, é verdade que ele te viu cantar?

AC: Não, ele me viu reger. Foi quando ele assinou com o Banco Nacional. Teve a festa de fim de ano do banco e eu era o maestro do coral do Nacional. Foi no Anhembi num circo que tinha por lá. O coral se apresentou para os funcionários e ele estava na platéia, depois foi homenageado e tudo.

FC: Como você se sentiu?

AC: Foi uma baita emoção, ele já era um ídolo meu.

FC: Arly, um assunto delicado...

AC: Manda ver.

FC: Você praticamente só canta em inglês, nada contra, mas tem tanta mpb de qualidade, você não acha meio desperdício um cantor com uma voz tão boa como a sua não cantar em português?

AC: Obrigado pela "voz boa". Eu vou fundo nessa resposta porque esse é um assunto muito sério pra mim. São dois os motivos que me levaram a cantar em inglês. O primeiro é que eu faço parte de uma geração que despertou para a música na década de sessenta. Haviam duas correntes musicais muito fortes aqui no Brasil. Uma era a bossa nova e a outra, que era mundial, a dos Beatles. Eu despertei para a música com os Beatles. Para quem nasceu de 1970 para cá, é preciso lembrar que os Beatles provocaram uma revolução intraduzível em palavras hoje. Social, moral e inclusive musical (risos). Os muito bairristas e/ou moralistas abominavam os Beatles e abominavam também aqueles que gostavam deles. Eram tribos incomunicáveis entre si. Cinco anos atrás, um amigo meu, famoso compositor da bossa nova, me disse que gostava muito dos Beatles na época mas não podia declarar, porque ele seria banido da tribo da bossa nova. Outro exemplo interessante é a grande amizade "secreta" entre Elis Regina e Rita Lee. Também não era divulgada. Esse separatismo fez com que eu, e muita gente, ficássemos na música dos Beatles e o pop rock. Assim, a minha formação de "cabeça" foi com a música deles e, mais tarde, com a de outros ingleses e americanos. Estou falando do período entre os meus 13 e os 25 anos, que foi quando eu comecei a estudar música erudita. O segundo motivo é de saúde (risos).

FC: MPB faz mal pra sua saúde? (risos)

AC: Hahaha...Não, não mesmo. Ouço muita mpb. Jobim é o meu preferido, aliás a pouca mpb que eu canto é dele. Outro que eu acho uma verdadeira escola é o Chico Buarque. Ivan Linz, pra mim, é outro gigante da mpb. O motivo de saúde que me leva a preferir cantar em inglês ou outra língua que não o português é a dislexia. Eu sou disléxico. Descobri isso há um ano. Escrevo com letra de forma, tenho muita dificuldade para ler (li muito a vida inteira, mas com muita dificuldade, sempre livros técnicos, teóricos, filosofia, psicologia), sou destro com a mão e canhoto com o pé e tenho uma enorme dificuldade para decorar qualquer coisa. Quando eu canto em outra língua, de preferência em um idioma remoto, a articulação dos fonemas passa a ter uma musicalidade própria, independente do significado de cada palavra. É claro que eu não vou cantar "Tears In Heaven" do Eric Clapton em clima de rock. Antes eu leio a letra, traduzo, incorporo a situação a que ela se refere e depois deixo o sentimento correr solto. Vira um vocalize (la la la) sentido. Para mim o sentimento expresso é o principal...de longe. Quando canto em português, que é o meu idioma, eu entro no processo de contar uma história...palavra por palavra...atrapalha a minha entrega ao sentimento. Parece louco mas é mesmo (risos). É como a dislexia me afeta.

FC: Entendi. Em quantos idiomas mais você canta?

AC: Além de português e inglês, em italiano, espanhol, alemão, latin e francês.

FC: Esse negócio de você não prestar muita atenção no significado de cada palavra quando canta não compromete a pronúncia?

AC: Não. É por isso que eu demoro uns quatro meses para incorporar uma única música. É um trabalho insano. Fico que nem um obcecado falando a letra dia e noite até a pronúncia ficar impecável, ao menos para mim. Encho a paciência dos meus amigos que falam outros idiomas. Porque é aí que está a minha dificuldade. Todo mundo que me ouve acha que eu tenho facilidade pra idiomas mas é exatamente o contrário. Uma situação muito engraçada, que se repete, é quando vem um inglês ou americano me elogiar no palco. Eles perguntam: "De que cidade você é lá nos EUA?" (gargalhada) Eu simplesmente respondo, "catando milho em inglês": "When I sing, you think that I am American, but when I speak you discover that I am brazilian" (Quando eu canto, você pensa que sou americano, mas quando eu falo você descobre que eu sou brasileiro). Daí vem aquele olhar perplexo e a frase: "Mas você canta como um americano, você se parece com um americano" . Daí eu penso: "Ta vendo como a pirataria aqui é de primeiro mundo?" (risos).

FC: Por falar em pirataria, o que você acha disso, Arly?

AC: No fim da década de 80 uma entrevista do Sting definiu bem essa história: Ainda estava no começo esse negócio de pirataria. Perguntaram a ele: "Sting, no sul da África você é campeão de vendas, inclusive é onde o seu cd vendeu mais, só que é tudo pirata, o que você pensa a esse respeito?". Aí ele respondeu: "Eu nem sabia disso, só sei dizer que eu tenho uma turnê marcada de quatro meses por lá". Cd, pirata ou não, é divulgação para o artista. Segundo o meu conhecido Juca Chaves, a gravadora é o primeiro pirata na vida do artista. Tanto no estrangeiro quanto aqui no Brasil, eles nunca divulgam os verdadeiros números. A briga do Juca, desde que eu me conheço por gente, é para que as gravadoras NUMEREM os discos, assim o controle seria melhor. Por que será que não fazem isso?

FC: Mas então porque os artistas vão à televisão fazer campanhas contra a pirataria?

AC: Os "só compositores" saem mesmo perdendo com essa história. Gozado, eu não vi um único deles nas campanhas. Já os intérpretes e intérpretes-compositores estão cheios de motivos para ir à TV e reclamar da pirataria. É que eles dependem das gravadoras para a DIVULGAÇÃO e DISTRIBUIÇÃO. Exposição, é isso que traz shows, além de cd pirata, é claro. Mas só o pirata não é instrumento suficiente de divulgação ampla. A gravadora paga o caríssimo jabá dos programas de mídia eletrônica e assim, com essa divulgação, o artista ganha com os shows. É assim, o dinheiro dos discos é da gravadora, o dinheiro dos shows é do empresário, se sobrar alguma coisa, fica para o artista (risos). Brincadeira. O dinheiro dos shows é do empresário e do artista. Mas isso nem é problema meu, eu não tenho um único cd gravado.

FC: Você falou jabá?

AC: (risos) Falei. Quando você quer anunciar um produto de consumo na mídia, voce paga ao veículo pelo uso do espaço. Só que pagar para tocar musica é proibido por lei. Daí, dizem e eu acredito, que as gravadoras, para promoverem seus "produtos artísticos " pagam aos veículos de midia para exporem os artistas e suas músicas. Essa quantia paga aos veículos é chamada, na gíria de bastidor, de "jabá". É um dinheirão. Tem até tabela.

FC: Você gostaria de gravar um cd?

AC: Claro que eu gostaria. Mas nesse "esquemão" eu acho praticamente impossível. Embora agrade muito as pessoas, o meu trabalho não tem a configuração de um produto da grande mídia de hoje. Não está nem um pouco afinado com o padrão musical estabelecido e imposto pela grande mídia, que são os pagodes, os sertanejos, os axés, os happers, etc. Nada contra esses estilos, só que eu não me enquadro nesse tipo de "comportamento".

FC: Comportamento?

AC: Com licença de ser um pouco catedrático e chover no molhado.A música é um idioma profundo e de decodificação impossível em nível verbal. A gente costuma curtir música por ser uma manifestação artística de alguem que expressa algo que queremos dizer também. Isso nos aproxima pela afinidade e torna o nosso convívio mais agradável. Na idade média a igreja se apoderou da música para torná-la o "hino" do comportamento que queria impor ao "gado" humano da época. Hoje o poder econômico se apodera da música para, igualmente, controlar e manipular o "gado" humano. Por exemplo, um grupo rebelde inventa uma grita musical em protesto contra a hipocrisia do sistema, aí o sistema trata de absorvê-lo. Por exemplo, o jazz e o rock. Ambas expressões queriam dizer "fazer sexo". Foram criadas por negros que eram muito mais rejeitados que hoje e revolucionaram a música popular criticando a hipocrisia do sistema. O sistema os absorveu com certa dificuldade. Hoje tá fácil, parece que o sistema criou poderosos anticorpos contra revoluções comportamentais inconvenientes à sua preservação. Absorve e transforma tudo muito rapidamente a seu favor. É que desde a massificação da informação, do advento da publicidade, da produção musical em massa, o que acontece é que a indústria não está ocupada com manifestação da música como arte mas sim que essa música seja o jingle (comercial cantado) de um comportamento interessante. Eles querem vender comportamento. Vender só o comportamento que lhes interessa, para que o consumidor seja o "gado" obediente. É isso. Pagodes, sertanejos, axés, happers, etc. têm muito valor, mas a restrição a só se divulgar isto é que limita a cabeça e as possibilidades existenciais do ouvinte que aceita ouvir só o que a mídia impõe. O que eu canto lembra e convida a outros comportamentos que, se massificados, não são convenientes à grande mídia de hoje, portanto à indústria, portanto ao poder. Então é melhor eu ficar no meu cantinho, cantando em Shoppings, festas particulares e empresariais que eu ganho menos, mas sou um artista feliz por cantar só o que gosto (risos). Até porque seu eu fosse levado à grande mídia de duas uma: Ou seria volatilizado em um ano ou seria obrigado a mudar de estilo. E eu não quero nenhuma das duas coisas. Quero cantar nos Shoppings e fazer shows, sem mídia, até morrer. Uma das grandes alegrias que eu tenho nessa vida de cantor é ser muito elogiado pelos lojistas, balconistas, crianças de todas as idades, diretores, seguranças, empresários, faxineiros, freqüentadores de diferentes credos e níveis sócio/culturais. É aí, precisamente aí, que eu deixo de ser só um produto para ser um artista...capaz de tocar a alma de todos os tipos de pessoas, SEM SER TAXADO DE NADA. Não sou O cantor de rock, porque eu também canto ópera, não sou O cantor de bossa nova por que eu também canto country, não dou O cantor de standards americanos por que eu também canto folclore brasileiro. Eu sou um cantor de música. Não sei se a grande mídia me daria essa liberdade. Acho que não.

 

 
 

Manias, preferências, hábitos e gostos.

 

Programa de TV: "Perdidos Na Noite" entre 1980 e 1988 do Fausto Silva e o seriado americano da década de 70 "Tudo em Família" (nunca veio para o Brasil, porque é MUITO bom!). Na minha opinião, as melhores coisas que já aconteceram na TV.
Atualmente YOUTUBE.

Filmes: "As Pontes De Madison", "Amor Além Da Vida", "Eyes Wide Shut", "Beleza Americana", "Terapia Do Prazer", e todos do Buñuel, do Pasoline, do Alan Resnais e do Feline.

Banda: Big Bands, Beatles, Yes, Emerson, Lake & Palmer, Supertramp, e mais...

Melhores Lugares: Minha casa e o palco.

Esportes: Automobilismo, natação, mergulho, futebol e caminhada.

Escritores: Augusto e Haroldo De Campos.

Livros: Na Sala Com Danusa (deveria se chamar "O Manual Do Desconfiômetro"),

Músicas: "If I Could", "Are you going with me?", "Always and Forever", "Cinema Paradiso" (Pat Matheny), "É" (Gonzaguinha).

Dia ou noite?: Noite

Mania: Rezar

Bebida preferida: Fruit Ponche (sem álcool) Receita: 2 porções iguais, 1 de suco de abacaxi e 1 de suco de laranja, daí acrescente groselha até dar a cor do mamão papaia, gêlo e.....só alegria. Aprendi em Porto Rico.

Música Erudita: Todos, menos os que não considero eruditos (como Gershwin e Villa Lobos) com leve preferência para Palestrina, Richard Wagner, Debussy, Mozart, Bach, Beethoven, Chopin e Vivaldi.

Pintores: Sisley, Monet e Van Gogh

Paixão: Automobilismo, cantar, fazer arranjos musicais que sejam releituras.

Cor: Azul

Prato preferido: Strogonoff de carne

Doce: Bem casado

Cantor nacional: Ivan Lins e Lulu Santos

Cantora nacional: Elis Regina

Cantor internacional: Billy Ekestine

Cantora internacional: Laura Fygi, Nina Simone, Diana Krall e Eliane Elias

Compositor popular nacional: Tom Jobim, Chico Buarque e Lulu Santos

Compositor popular internacional: Pat Matheny

Ator internacional: Roberto De Niro

Atriz internacional: Mary Louise Streep

Ator Nacional: Raul Cortez

Atriz Nacional: Fernanda Montenegro

Cidade: Mônaco

País: França

Povo: Brasileiro

Hobby: Automobilismo (kart) rFactor (game de F1 para computador)

O que te incomoda nas pessoas: Desafinidade

O que te agrada nas pessoas: Afinidade

Coisa mais importante da vida: Interagir com fluência e amor.

Uma paisagem: Heildelberg (Alemanha) no passeio dos filósofos e os Alpes Suíços.

Perfume: o natural da mulher amada

Ídolos: Carlos Heitor Cony e Constanza Pascolato

Estilo Musical: Música Erudita e New Age

Melhor Momento Da Vida: AGORA !!!

Saudade: Minha madrinha Judith.

Instrumento musical: para ouvir, flauta e harpa.

Desejo: que ponhamos a relação acima da individualidade (não em detrimento!!!)